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A PELEJA DO PADRE COM O CORONEL


Os dois nomes mais famosos de nossa cidade, no século passado, foram, sem sombra de dúvida, o coronel José Abílio e monsenhor Alfredo Damaso. Viveram numa mesma época, e como dois bicudos não se beijam, eram adversários políticos.

De tudo que poderia existir, um sempre estava do outro lado, pois o poder não podia ser dividido; cada um que fosse mais forte que o outro e, realmente, eles tinham essa força. Enquanto o coronel era quem dava as cartas na política, o padre era poderoso, tendo a fé ao seu lado; e ele sabia exercer este poder: era um homem que afagava com uma mão e tinha um chicote na outra, quem não rezasse pela sua cartilha sentia a força do seu braço. O padre Alfredo tinha sido capelão da Coluna Preste, aqui no Nordeste. Era um homem que não tinha medo de nada e andava com um 38 embaixo da batina. Este homem, embora padre, não tinha medo de nada, quando dizia uma coisa, queria ver cumprida. Era um homem de grande coração; andava humildemente, não tinha luxo, não se aproveitava da situação de ser um líder religioso carismático para daí tirar proveito próprio; o que tinha dividia com os mais necessitados; tinha sua convicção e dela não abria mão. Uma convicção era que o coronel fazia muito mal a nossa cidade, que ele era um ser em que o poder era só dele e para ele, não podendo existir nada que o pudesse afrontar; era o poder absoluto, onde o povo era apenas um mero participante deste poder, pois, ao contrário do padre, o coronel não dividia o seu poder e as suas condições com os mais humildes: quanto mais o povo fosse pobre e ignorante, era melhor para ele dominar este povo, sendo bastante, em época de eleição, dar-lhe algumas migalhas e estava resolvida a questão. Diante dessa tirania do coronel, o padre foi ficando cada vez mais contra o coronel, até que resolve enfrentá-lo nas urnas, enfrenta-lo no seu campo de batalha. Acreditava que ganhando do coronel, mudaria a vida de nossa cidade. Bom conselho era, naquela época, um dos maiores município do Estado em extensão territorial. Para os senhores terem uma ideia, nos anos 60 foram desmembrados dois distritos que se transformaram em municípios – Terezinha e Saloá – e mesmo assim o município ficou grande. O coronel tinha o total controle nos 10 distritos e povoados que compunham o município de Bom conselho. Em todos os distritos os homens mais fortes politicamente e financeiramente, estavam ao lado do coronel, assim como o poder constituído: do delegado ao juiz – tudo era manobrado pelo o coronel. Foi diante deste quadro que o padre Alfredo resolveu enfrentar a fera. Pela primeira vez, depois de muitos anos de domínio absoluto, o coronel se viu realmente ameaçado de perder este poder. Os adversários do coronel viram também a chance de derrota-lo. Nossa cidade teve a maior campanha de sua história. Resultado: o coronel perdeu as eleições. Só que a força do poder neste caso foi maior do que a força do voto: ele fraudou as eleições como nunca ele tinha fraudado, pois sempre se disse que ele nunca ganhava uma eleição limpa, ele persuadia com violência se assim fosse necessário, obrigando o eleitor a votar nele. Porém, nesta, ele foi além. Para os senhores terem uma ideia do escândalo que foi essas eleições, uma urna foi violada e não a tamparam direito; ao chegar no fórum, o tampo de baixo caiu, expondo os votos. Mas mesmo assim não foi anulada as eleições e o padre perdeu as eleições para o coronel. Se eles já não se davam bem, imaginem o ódio que passou a ter o padre em relação ao coronel; e este ódio se estendeu até o final dos seus dias.

O coronel tinha por obrigação ir à missa todos os domingos. Ficava em pé, escorado no altar de Nossa Senhora. O padre, ao entrar na igreja, certificava-se que o coronel estava presente, então ia soltando indiretas no decorrer da missa. O coronel ali, firme, sem se alterar. Os amigos do coronel o questionavam do porque ele ir à missa, sabendo ele que o padre ia sempre fustiga-lo, e o coronel respondia que era uma forma de dizer ao padre que não tinha medo dele, e mostrar ao povo que era religioso, e que podia brigar com todo mundo, menos com o padre.

O padre dizia que podia abrir o código penal em qualquer página que o coronel estava enquadrado. Por sua vez, o coronel dizia que a opinião do povo era um cheque sem fundo.

Nos anos cinquenta, o padre resolve fazer uma casa paroquial decente. Começa a pedir a ajuda da população, principalmente das pessoas mais ricas. O valor das doações era mencionado depois da missa, onde se lia o nome e o valor da sua doação. As pessoas ficavam até o fim para saber quem deu mais. O coronel então recebe a comissão e pede para dar uma olhada no que já fora doado. Certificado os valores, doa à paroquia uma quantia 10 vezes maior que a maior contribuição já dada. Foi um espanto geral. No domingo seguinte, está lá o coronel esperando pelo anúncio das contribuições; era a maneira dele ver o padre falando o seu nome e ainda por cima mencionar a maior contribuição; isso seria um grande golpe no padre. Então, ao terminar a missa, o padre inicia a leitura das contribuições. Ao chegar no nome do coronel, o padre para e engasga: e todos os presentes esperando, e o coronel ali, com um risinho no canto da boca. O padre cria coragem e diz: DONA ISMÊNIA ÁVILA (esposa do coronel), cinco contos de reis. Ai o coronel fica branco, pois ele esperava o seu nome e não o da esposa. Feito isso, ele vê o padre olhar em sua direção e dar aquele risinho discreto, como dizendo: pensou em me pegar, mas quebrou a cara.

Dizia o padre que iria colocar terra na cara do amarelo – era assim que ele se referia ao coronel: infelizmente, foi o amarelo quem colocou barro na cara do padre. O coronel veio a falecer cinco anos depois da morte do padre, e quando o padre morreu, 1964, o coronel confidenciou aos amigos que com a sua morte, acabava um pouco da vontade de viver, pois ele gostava dessa briga com o padre.



Texto extraído do livro A TENDA DE ZÉ BIAS do escritor bom-conselhense. ALEXANDRE TENÓRIO VIEIRA

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